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Sobre a suposta utilidade de um blog
Blogs foram feitos para a gente escrever bobagens. No começo, achei que seria algo bastante literário, sério, sisudo até.
Mas não. Eles servem para a gente dar uns toques, conversar sobre coisas, dividir momentos interessantes. Como o meu.
Femi Kuti, o filho do Homem em meu som. Bobeira, numa rede, uma iluminação bacana enchendo minha sala - uma luz frágil, reconfortante, depois de um dia louco.
Blogs foram feitos para isso. E por aqui, não dá mais. Estouro a cota do blog para não estourar meu saco. Muito menos meus miolos, preciosos miolos
Casa nova. Quem puder me acompanhar, convidado está. Renovem os links, assim que puderem: Cozinha do cão, é meu novo nome!
Escrito por Gustavo Rios às 01h33
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Mulheres quando escrevem com o coração e a alma – usando uma metáfora meio batidona, mas única e fatal – são melhores que homens. Elas parecem estar num meio de uma tempestade qualquer, e conseguem, nestes casos, recitar alguns poemas legais enquanto a chuva destrói a porra toda.
Também sempre achei que mulheres têm uma vantagem sobre nós, pobres marmanjos: elas são sensíveis. Mesmo as burras, têm uma sensibilidade a mais, ainda que seja para fazer um bocado de merda, ou foder com o time de um desavisado qualquer.
Bem, tô escrevendo tudo isso aí apenas para dizer que tenho que fazer uma correção. Um erro que cometi. O de nunca ter lincado aqui o blog de Fernanda D’Umbra, companheira de Mario Bortolotto.
Ela tem a sensibilidade feminina, muito além da simples e quase predominante equação “maquiagens e 1001 maneiras de atingir o orgasmo das revistas Nova”.
Os textos são fortes e verdadeiros. Uma mulher que escrevem bem, casada com um outro cara que também escreve bem. Eles atuam juntos num teatro que nunca fui. E vivem juntos uma vida que já vivi algum dia.
Fico feliz em conhecê-la, mesmo que através de redes, cabos, programas e teclados quase quebrados. Fico feliz pelo Mário, que também nunca vi. E que conheço da mesma forma. E espero qualquer dia pintar por lá, para tomar algumas doses. Sem gelo, por favor.
Escrito por Gustavo Rios às 19h28
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Coqueiros...estranhos coqueiros
Já disse isto em vários contos meus, e para alguns amigos próximos: meus melhores momentos não tiveram o testemunho do mar, nem de coqueiros preguiçosos. Mas é certo que o mar tem seus encantos. E, cada vez mais, me rendo a alguns deles.
O mais forte é o de me fazer pensar. Como hoje...
Uma tarde graciosa, tranqüila. Eu, lento, sossegado, numa felicidade serena, encarava aquela vastidão que "carrega algas”, para usar uma de minhas metáforas. Fumando um cigarro, sentado num banco de praça, aqui, no Rio Vermelho, mais uma vez me peguei pensando coisas.
Os dilemas não me incomodavam. Nenhum deles. No clima de leveza em que me encontrava, nada me incomodava. Cataclismos, finais infelizes. Em mais um de meus momentos me sentindo único, eu vagava.
Enquanto o mar fazia aquele barulho tão característico, uma sinfonia louca e etérea, eu me perguntava em que me tornei.
Um sujeito firme em alguns propósitos, ostentando uma bela tatuagem, magro, com um rosto ainda um pouco cansado. Sentindo medos comuns. Sonhando com coisas quase divinas. Carregando alguns segredos bons, outros nem tanto. Como todos nós, ao menos os que viveram momentos de alguma intensidade. Podendo ser um simples livro, uma moeda perdida no chão.
Senti-me um cara corajoso. Dentro de minhas possibilidades. Desejoso de mais vida, mulheres, caminhos, momentos, até que a derradeira bomba caia sobre nossas cabeças. Enxergando tudo ao mesmo tempo. As garotas que passavam distraídas, os rapazes em bandos, tentando se afirmar num mundo cão, louco, mas único. Nossa única chance de vivermos de alguma maneira.
Eu estou tentando segurar a minha. Com todas as minhas forças. Abraçar o tal mundão com as pernas, se preciso. Agarrar-me ao que me marca. O que me define como um, entre tantos outros, mesmo que isso pareça excessivamente pretensioso e vão.
Rindo por dentro. O cigarro apagado, ainda pendendo na boca. Um por do sol em outro lugar. Este foi hoje o meu final. Nada infeliz, para meus propósitos.
Escrito por Gustavo Rios às 01h58
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Onde está Luciana ?
A última lembrança é a dela meio chapada, tentando me convencer, em plena Praça da Piedade, que Roberto Da Matta era o cara. Enquanto isso, rolava Mundo Livre S/A na faculdade de economia.
Claro, têm muitas outras lembranças. Boas, todas elas. Mas ela sumiu. Dizem que está morando numa comunidade Hippie, tentando enxergar discos voadores, para convencer aqueles seres verdes e chatos para caralho, que uma vida boêmia tem encantos. Pois os amigos, querem ao menos um telefone para lhe dar, atrasados, os parabéns.
A pergunta é: onde estará Luciana Oliveira?
Escrito por Gustavo Rios às 01h05
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Orkut de bebum tem dono?
Tô no Orkut. Procurem Gustavo Silva. Igual ao do Ayrton e do Lula.
Escrito por Gustavo Rios às 04h40
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Meu emprego
Amigos,
Sou um cara de sorte. Mesmo sentindo que o ciclo se fecha, ao menos no local onde trabalho, saco que tenho sorte. Apesar da hora que lhes escrevo estas linhas - quatro da matina, meu Deus! - do visível cansaço em meus olhos, da pouca grana, eu gosto de estar enfiado numa cozinha.
O motivo? Meu emprego é único. Não falo aqui das receitas que aprendi, dos métodos, manhas, artimanhas e escrotices - todo bom cozinheiro deve ter um bocado delas -, mas falo do material humano. Pessoas, acontecimentos, piadas infames, para ser repetitivo.
Qual outro emprego tem o que o meu dá? Qual o trampo que me coloca numa Kombi velha e lenta pacas, altas horas da noite com um monte de gente fodida, mas risonha, dentro de seus horizontes, abusando pessoas na rua, soltando beijinhos para putas na orla marítima? Qual o trabalho que tem um garçom gago, mestre de capoeira, que toca trombone? A cena clássica dele tocando Wave, ou Parabéns Para Você, para desavisados clientes, no desejo louco de mostrar sua música e, claro, ganhar uma gorjeta (afinal de contas, o cara é gente boa, mas é um garçom!) é quase hilária. E isto geralmente acontece quando estou atarefado com vários pratos, ou grelhando o peixe do dono do restaurante. Qual o local que colocam sal em seu rango, pimenta em seu copo de água, manchas de batom em sua farda alva?
Qual o trabalho que te faz bufar de raiva quando o dono do local diz, na sua cara, que quase vomita comendo um prato que você fez? E quando você vai checar, com o orgulho fodido, constata que ele falava da pele de um maldito polvo. Ou ele quer que a gente escalpe os pobres seres do mar?
Nenhum outro emprego tem o que tenho lá. Ou vários outros, nem bem sei. O que sei é que estou curtindo esta minha nova vida. Ainda. Pois sei que, não sendo nenhuma criança, um dia eu vou achar isso meio fora de moda. Farei uma cara blasé e direi aos meus comandados “Garoto, eu já vi muuuito disso”.
Escrito por Gustavo Rios às 04h39
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O sol que ilumina meu dia é negro
Eu não ia postar nada agora. Juro! Ia fazer outras coisas, cuidar da vida. Mas eis que reecontro um Cd, do Stevie Wonder.
Meus caros, queridos, fiéis leitores. Quanta felicidade! O dia amanheceu mais claro, o céu mais ameno. As coisas com um ar de superioridade, força e beleza. É como se tudo que fiz até agora, todos os meus atos, erros, acertos, fizessem um puta sentido. É como se o cara me mostrasse que tô no caminho certo. Da minha forma, do meu jeito.
Os objetos de meu adorável reino compactuam com as notas musicais, a voz, a melodia. Numa cumplicidade nunca antes imaginada ou experimentada por nenhum homem nesta terra. É como se eu fizesse parte de algo realmente válido, mágico e extremamente humano.
Isso é felicidade. Gratuita, como deve ser.
Reforço aqui minha teoria, nem tão original assim, que toda música do mundo é negra. Em essência, ela é negra. E a essência é o que realmente importa, num mundo de falsos sentimentos. Não dá para imaginar o mundo sem caras como o Stevie, ou Marvin Gaye, ou B.B. King – só para citar a pontinha do iceberg, um milímetro. As melhores coisas que vivemos são marcadas por uma trilha sonora. E ela é negra. Quente, emocional, pungente, eterna. Fodendo com nossas restantes tristezas e dúvidas desnecessárias.
Seria insuportável viver sem escutar, de vez em quando, músicas como esta que escuto agora, dentro de meu adorável reino. Fumando um cigarro, agradecendo a um deus piadista, lembrando de pessoas queridas, dançando sozinho. E sacando que o que faltou ao Stevie Wonder nos olhos, sobra, e muito, no coração, nos ouvidos, na alma.
Ele sempre enxergou muito além. Sempre.
(mais uma vez, de forma solene, me rendo e agradeço a quem me apresentou o Cd. Mesmo que não queira citar o nome. Eu o colocaria em letras gigantes)
Escrito por Gustavo Rios às 13h50
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Tá foda sem imagens por aqui. Tento dar um jeito nisso, relaxem...
Escrito por Gustavo Rios às 12h49
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Breve odisséia num domingo louco
Amigos,
Lá vou eu para o dia dos pais. Um dia bacana, como todos os outros que servem para nos lembrar algo às vezes esquecido. Fora a questão do consumo...
Bem, mas não venho aqui para falar sobre dias importantes e consumismo. Vim para lhes falar de cozinha. Panelas, comandas acumuladas, pratos borbulhando. Afinal, este é o meu mundo.
E para ser mais didático, tentarei aqui organizar a coisa toda por horas. Fazendo um breve e nem tão confiável resumo do que rolou por lá.
(ah! a trilha sonora continua sendo o The Who, me perdoem)
1º hora – cheguei cedo, depois dum sábado cansativo. As olheiras denunciavam que eu dormira pouco. Mas eu tava lá, farda limpa e passada, chapéu, barba feita e uma vontade louca de meter a mão na massa...ou nos mariscos.
2º hora – havíamos já preparado quase tudo. Temperos cortados, geladeiras abastecidas, dois cigarros e algumas conversas desnecessárias.
3º hora – chega o nosso auxiliar. Com uma puta cara de ressaca. Pela segunda vez, o cara pisa na bola com o chef que, prontamente, lhe dá um esporro clássico, mas de curta duração, já que ainda faltava muita coisa.
4º hora – primeiro cliente da casa. Tranqüilo, comeu rápido, fazendo o pedido sem maiores problemas. Eu observava e conferia guarnições, temperos, panelas. A coisa ia esquentar.
5º hora – é o que eu chamo de estouro da manada. Todo a cidade resolvera chegar junta. Vários pedidos, bandejas sendo montadas, garçons enchendo nosso saco, uma vontade louca de fumar um Free. Eu já desejava ter mais de dois braços para dar conta de uma grelha, uma fritadeira e duas sauters, cheias de coisas. Do outro lado, já via cinco bocas de fogão ocupadas. Eu pensava em fumar um cigarro.
6º hora – já me encontrava na boqueta. Nada de erótico nisso, creiam. É o lugar onde cantamos as comandas para serem feitas pela cozinha. Pratos, marcação de horários, tempo de cozimento etc. Tinha que manter a calma para ainda dar uma checada se algo faltava nos pratos. Decorações, sal essas coisas. Eu tinha um Free por detrás da orelha.
7º hora – eu desejava tudo, menos estar ali. Queria sumir, morar numa praia deserta, fumar maconha, vender miçangas; queria correr nu cantando a internacional comunista; virar dançarino do Bolshoi, qualquer merda, menos estar ali, olhando para um bocado de comandas acumuladas, com entradas saindo com algum atraso, garçons escrotos, meu cigarro ainda atrás da orelha. Queria uma boa foda com uma mulher que me enlouquecesse de vez.
8º hora – a coisa já estava meio que controlada. Depois de quase esmurrar o maitre – o chef teve de interceder para não dar merda – eu já estava mais calmo. Eu tinha alguma prática com facas, ele não. Seria desvantagem.
9º hora – últimos clientes. Começava a limpeza da cozinha. Eu, escapara para fumar o tal Free, de forma sorrateira. Olhava o relógio dum amigo. E ainda desejava uma boa mulher que me pirasse de vez. Numa forma gostosa e bastante comum de relaxamento: sexo. Juro! Pensava em sexo, num momento clássico tão comum aos homens, que usam a cama para fugir de coisas.
10º hora – no coletivo, tentava ler um livro do Walt Whitman. Sem sucesso, pois os olhos desabavam. Pedi perdão ao velho, o mago Whitman, e fiquei olhando as poucas luzes da cidade, por trás do vidro embaçado do ônibus. Ainda pensava em mulheres loucas, selvagens, que me mordessem os braços e outras coisas mais.
11º hora – Cachorro Grande em meu som. Metade dum baseado. Banho cuidadoso e sono justo e heróico. Desabei em meu colchão. A mulher que tanto desejara surgiu ...mas na segunda, saquei que era um sonho. Acho que passei a noite toda com um riso imbecil na cara.
Escrito por Gustavo Rios às 12h47
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Orgulho
Amigos,
Dia dos pais. Um inferno, literalmente. Fomos quase massacrados por famintos senhores gordinhos trajando camisas gola polo e mocassins. Quase fomos devorados...
Mas deu tudo certo. Ao final do dia, congratulações do chef. Abracinhos entre colegas e cigarros sendo passados de mão em mão.
Vou dormir. Depois conto mais...
Escrito por Gustavo Rios às 17h28
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Felicidade muitas vezes é algo bobo...
...portanto, fodam-se. Os falsos literatos, os tristes sem motivo algum, os otários de coração duro, os que insistem em viver numa merda de vida.
Chego em casa, depois de um dia cansativo, promissor, com alguns acontecimentos inesperados. E me esbaldo, caralho, ao som do mesmo cara, o Jorge Ben...
Escrito por Gustavo Rios às 22h18
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Olhos fechados e alma exposta num sebo de livros
Sinceramente, às vezes acho que vou implodir. E gostaria que isso fosse somente uma metáfora tola, feita as pressas, nem tão original assim. Dum cara que senta num computador, fuma alguns cigarros, ouve See Me, Feel Me, do The Who, e tem uma comoção frágil, passageira.
Mas comigo não é assim...
As coisas tomam proporções gigantescas, épicas. Um livro que folheio num sebo, com uma dedicatória de alguém apaixonado; ouvir The Who sozinho em meu reino; fumar coisas ilícitas; ver, rever, falar com pessoas tão queridas; fazer escolhas e esquecê-las, ao ver o sol sumir lentamente, deixando sua marca na paisagem: uma cor sem nome, uma mistura de vermelhos, amarelos, roxos, todos se deitando sobre os prédios antigos do centro da cidade.
Às vezes, de tão comovido – uma comoção discreta, apenas um leve fechar de olhos, para não incomodar transeuntes, desconhecidos, guardas de trânsito, porteiros - , acho que vou pirar.
Mas eu sento. Respiro, com um livro nas mãos. Fechado, mas a presença daquela obra, escrita por alguém que colocou a alma no fogo, me alegra.
Palavras surgem em minha cabeça. São frases inteiras, fortes. Reveladoras, na medida em que me exponho um pouco, sempre que escrevo.
Sinto falta de uma caneta qualquer. Um papel qualquer. As palavras continuam a massacrar meus ideais e certezas. Talvez uma música me salve. Então concentro meus ouvidos. E tudo de que disponho – tripas, culhão, alma - e me entrego lentamente a alguma canção que rola.
As palavras somem. Minhas únicas armas. Parecem que nunca mais voltarão. Porém, o rastro que deixam me marcam fortemente. E eu sei que um dia, numa porra de um dia, elas pintam. Calmas. Mais amenas e organizadas. Domesticadas. Para que eu possa sentar, como faço agora, e escreva. Os dedos digitando coisas como esta. Tentando, de uma forma engraçada, ser eterno.
Escrito por Gustavo Rios às 01h23
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Jorge Ben, Stereolab, tanto faz. O gostoso é o caminho percorrido
tatuagens em atrito
soltavam faíscas
queimando o pouco que havia
de remoto e triste em meu quarto
repousando numa pele
tão conhecida e desejada
por isso
ao final da tarde
reafirmei para mim mesmo
que nunca acreditei em musas
para mim mulheres distantes demais
perfeitas demais
inspirando poemas fracos
tais musas tão idealizadas
dentro de suas frágeis qualidades
nunca diriam o que me foi dito
nesta tarde de folga e algazarra
deliciosas verdades
sussurradas em meus ouvidos...
Escrito por Gustavo Rios às 01h15
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Melodias quase incompletas (para meu irmão mais velho)
havia muita poeira
e ainda há na bela capa preta que encobre
o instrumento
falta-lhe também
algumas cordas
que é o mesmo que dizer
"falta-lhe algumas melodias
ou notas musicais"
ainda não sei
o que sei
é que ele está recostado
numa de minhas paredes
parecendo uma relíquia antiga
uma espécie de louca referência
do que fomos quando mais novos
distantes, um longe do outro
mais próximos agora estamos
num riso de uma criança
ou nas dificuldades que a vida impõe
a falta de grana
uma garagem agora arrumada
pronta para um recomeço dele
a mesma que foi abandonada por mim
e que agora lhe pertence
saio de casa
com o instrumento nas costas
rindo por sacar que tinha feito
uma boa troca
também sabendo que
mesmo sem algumas cordas
a melodia estará completa
Escrito por Gustavo Rios às 01h13
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Nada de adulações, no mundo louco das panelas
Amigos,
Esta vai ao som do Iggy Pop...Search and Destroy.
A cozinha não é, definitivamente, um lugar para condescendências. Não há lugar para os bonzinhos, o que não significa, necessariamente, que temos de ser escrotos. São as regras, implícitas ou escancaradas mesmo.
Tentarei ser mais claro...
Um cabo não pode se dar ao luxo de se tornar, de uma hora para outra, um sargento ou coisa que o valha. Antes de obter a sua bendita patente o cara tem de ralar um bocado. Fazer flexões de punhos cerrados, no asfalto; dormir em guaritas pensando na namorada gostosa; manejar fuzis, pistolas e outros brinquedinhos de guerra - para ser mais franco e direto nesta minha metáfora bélica.
A cozinha é parecida. Para ser "o cara" é preciso saber muita coisa. Nada de ganhar terreno pelo lindo e encantador par de olhos. É preciso ser forte. Bruto, ágil.
Mesmo.
Pratos com rapidez, guarnições, criações, decorações, caixas de gordura, filar cigarros dos garçons - o máximo possível, mesmo que seja para distribuir aos mendigos, pois o gostoso é dar prejuízo aos sacanas - e rir da própria condição amalucada. Esta, de varar noites num calor infernal e achar tudo legal - para ser mais franco e direto nesta minha rima.
Largar o restaurante agora para mim é uma questão de necessidade. Por sinceridade às minhas convicções e sonhos. Desde janeiro venho fazendo comida típica baiana. E sinto que ando meio defasado nos quesitos Bechamel, Demi-Glace e por aí vai...
Não vou gastar vossas atenções com detalhes, pois este não é um blog de receitas e sim de descobertas, comidas, bossas.
Por querer ser temido. Por desejar que todos, ao me verem daqui há algum tempo, afirmem, mesmo que silenciosamente, “Lá vai o fodão!”.
Sou um sujeito até que legal. Os mais chegados sabem disso. Mas não posso viver de elogios ou singelos afagos na cabeça. É o que chamo de indulgência nociva.
Ser o cara que, mesmo sendo insuportável, excêntrico, louco varrido, seja reconhecido por seus dotes profissionais, é a meta. Claro que não desejo ser um filho da puta. Mas ser o mesmo sujeitinho bacana e um grande cozinheiro, é bem melhor. E isto só se consegue na luta diária, ou noturna, dependendo do turno.
Quero chegar algum dia, em algum lugar e, com meu olhar definitivo, mandar mensagens do tipo: “Tremei ó mortais de merda. Estou aqui!”. Só com um olhar, meio assim, furioso e mordaz. Quero ser tipo o Charlie Watts, dos Stones – para mim uma figura. Impor respeito sem mexer nenhuma sobrancelha. E, com a mesma cara compenetrada, dar seu recado com as baquetas. No meu caso com as facas - para ser mais franco e direto nesta minha metáfora musical.
Além disso, tenho de lutar contra uma coisa somente minha: me deixar embrutecer sem perder a ternura, como diria o Che. Dar os mesmos abraços em amigos, me apaixonar do mesmo jeito por mulheres, com a mesma desenvoltura e força que terei para mandar algumas pessoas para o caralho – para ser mais franco e direto nesta minha metáfora sem nexo.
Não é a minha hora de ser um subchef. Ainda tenho um chãozinho pela frente. Nada de curvas ou atalhos. Kerouac, Fante ou Miller, não poderão me ajudar nessa. Sartre, com sua tristeza chata, muito menos – este quando pintou, só fez atrapalhar. Sou eu, um bando de cozinheiros sagazes, verdadeiros macacos velhos, e a minha correria para fazer uns quatro pratos de vez. Todos enfileirados, fervendo, cheirando bem, enquanto garçons vêm encher o saco na boqueta. E me tornar meio que uma lenda para eles. E, mais importante, para mim mesmo.
Desejem-me sorte!
Escrito por Gustavo Rios às 00h27
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